Existe uma frase que circula em quase toda proposta de climatização industrial: “resolve a NR-15”. Ela costuma vir acompanhada de um número de queda de temperatura — 6 °C, 8 °C, 10 °C.
O problema é que esses graus e a NR-15 falam de coisas diferentes. A queda que o catálogo promete é de temperatura de bulbo seco. E a temperatura de bulbo seco não entra na conta que a norma faz.
Isso não significa que climatização não ajude — ajuda, e às vezes de forma decisiva. Significa que a relação entre a queda anunciada e o ganho legal não é de um para um, e que existe um limite físico além do qual nenhuma quantidade de equipamento atravessa. Este artigo mostra onde esse limite está e como você o calcula antes de pedir orçamento.
O que a NR-15 mede — e não é a temperatura do ar
O Anexo 3 da NR-15 foi reescrito pela Portaria SEPRT nº 1.359, de 09/12/2019. Na versão atual, a avaliação segue a NHO 06 (2ª edição, 2017) da Fundacentro e se apoia em três elementos:
1. O índice IBUTG, não a temperatura. IBUTG é o Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo, e em ambiente fechado — o caso do galpão — ele é calculado assim:
IBUTG = 0,7 × tbn + 0,3 × tg
Onde tbn é a temperatura de bulbo úmido natural e tg é a temperatura de globo. Em ambiente externo com carga solar direta entra uma terceira parcela (IBUTG = 0,7 tbn + 0,2 tg + 0,1 tbs), mas dentro do galpão vale a primeira.
Repare no que não está lá: a temperatura do ar, o bulbo seco, tbs. Peso zero.
2. A taxa metabólica da atividade. O limite não é um número único: depende de quanto esforço o trabalhador faz. O Quadro 2 do Anexo 3 traz a taxa metabólica em watts por tipo de atividade, e o Quadro 1 converte essa taxa no IBUTG máximo tolerado. Quanto mais pesado o trabalho, mais baixo o limite.
3. Os 60 minutos mais críticos. A norma trabalha com IBUTG médio e taxa metabólica média obtidos no período de 60 minutos corridos que represente a condição mais crítica de exposição. Não é média do turno — é o pior intervalo de uma hora.
Ultrapassado o limite, a atividade é caracterizada como insalubre em grau médio. E a caracterização exige laudo técnico com metodologia, datas, horários, identificação dos aparelhos e certificados de calibração — a norma lista o conteúdo mínimo item por item.
Por que 8 °C de queda não viram 8 °C de IBUTG
Volte à fórmula: 0,7 tbn + 0,3 tg.
Quando um climatizador evaporativo derruba 8 °C de bulbo seco numa tarde seca de setembro — número que calculamos e verificamos no primeiro artigo desta série — ele age sobre o índice por dois caminhos indiretos, não por um direto:
Pelo termômetro de globo (tg), que pesa 0,3. O globo responde à temperatura do ar, à radiação das superfícies quentes e à velocidade do ar. Ar mais frio e em movimento baixa o tg. Mas esse caminho carrega menos de um terço do índice.
Pelo bulbo úmido natural (tbn), que pesa 0,7 — e aqui a coisa fica interessante. O tbn não é o bulbo úmido psicrométrico. É medido com pavio umedecido, ventilação natural e exposto à radiação do ambiente. Num galpão quente e parado, com fontes radiantes de processo, o tbn fica acima do bulbo úmido real do ar. Aumentar a velocidade do ar e baixar a temperatura das superfícies empurra o tbn para baixo, na direção do bulbo úmido — e climatização evaporativa faz exatamente as duas coisas.
Ou seja: o ganho existe e vem sobretudo pela parcela que mais pesa. Só que ele tem um fim.
O piso: o bulbo úmido do ar de fora
Resfriamento evaporativo é um processo adiabático. O ar cede calor sensível e recebe vapor, caminhando sobre uma linha de bulbo úmido praticamente constante na carta psicrométrica. A consequência é direta e pouco lembrada:
O ar que o climatizador entrega tem essencialmente o mesmo bulbo úmido do ar externo que ele captou. Evaporativa não reduz bulbo úmido. Ela troca calor sensível por umidade, mantendo o bulbo úmido onde estava.
Daí sai um limite rígido. Como o tbn nunca desce abaixo do bulbo úmido do ar, e o tg nunca desce abaixo do bulbo seco do ar insuflado — que por sua vez é maior que o bulbo úmido —, os dois termos da fórmula são maiores ou iguais ao bulbo úmido. E uma média ponderada de dois valores que não descem abaixo de X também não desce abaixo de X:
IBUTG ≥ bulbo úmido do ar externo.
Esse é o piso. Ele não depende de vazão, de marca, de quantidade de equipamentos nem de qualidade de instalação. É a física do processo.
O que isso dá, na prática, no interior de São Paulo
Usando as mesmas condições do primeiro artigo — normais horárias 1991–2020 do INMET para estações do interior paulista, às 15h — e calculando o bulbo úmido pela fórmula de Stull (2011):
| Época | Ar externo às 15h | Piso de IBUTG | Taxa metabólica máxima teoricamente alcançável |
|---|---|---|---|
| Agosto | 29 °C / 38% | 19,3 °C | 606 W — o Quadro 1 inteiro |
| Setembro | 30 °C / 42% | 20,8 °C | 606 W — o Quadro 1 inteiro |
| Outubro | 32 °C / 52% | 24,4 °C | 606 W — o Quadro 1 inteiro |
| Fevereiro | 32 °C / 63% | 26,3 °C | 440 W |
| Litoral | 31 °C / 82% | 28,4 °C | 289 W |
Cruzando esse piso com o Quadro 1 do Anexo 3, para atividades tiradas literalmente do Quadro 2:
| Atividade (Quadro 2) | Taxa metabólica | IBUTG limite | Ago–out | Fevereiro | Litoral |
|---|---|---|---|---|---|
| Em pé, trabalho moderado com as mãos | 180 W | 30,7 °C | possível | possível | possível |
| Trabalho moderado de braços (varrer, almoxarifado) | 320 W | 27,8 °C | possível | possível | inviável |
| Empurrar carrinho de mão com carga, no plano | 391 W | 26,8 °C | possível | possível | inviável |
| Andando a 4 km/h com carga de 30 kg | 450 W | 26,1 °C | possível | inviável | inviável |
| Trabalho pesado de levantar, empurrar ou arrastar | 524 W | 25,4 °C | possível | inviável | inviável |
Leia a linha de fevereiro com atenção. Numa tarde úmida de fevereiro, o piso físico de um sistema evaporativo — 26,3 °C — já está acima do limite de tolerância para movimentação pesada de carga. Não é problema de dimensionamento. Não se resolve com mais equipamento. A tecnologia, naquela condição e para aquela atividade, não alcança o número.
E leia a linha do litoral: com bulbo úmido em 28,4 °C, quase toda atividade industrial de esforço médio para cima fica fora de alcance o ano inteiro.
Como usar isso: um teste de triagem, não um certificado
O piso é um limite inferior — o melhor caso concebível. O IBUTG que você vai medir no galpão fica acima dele, sempre: há radiação das fontes de processo, o ar insuflado reaquece ao percorrer o ambiente, a distribuição nunca é perfeita e o tbn real não chega a encostar no bulbo úmido.
Isso torna o teste assimétrico — e é assim que ele deve ser usado:
- Piso acima do limite da atividade → é não. Definitivo, e você sabe disso antes de medir qualquer coisa, antes de qualquer orçamento. Nenhum arranjo de climatização evaporativa vai enquadrar aquela atividade naquela condição.
- Piso abaixo do limite → é talvez. Só isso. Significa que a física não impede — não que o sistema vai entregar. Quem decide é a medição.
Condição necessária, nunca suficiente. Qualquer proposta que transforme o segundo caso em promessa de enquadramento está vendendo o que não pode garantir.
Duas coisas que costumam passar batido
A NR-15 não é a única obrigação — e nem é a primeira. O Anexo 3 da NR-09 trata da exposição ocupacional ao calor pelo lado da prevenção, com nível de ação próprio: ultrapassado, o empregador já deve adotar medidas — disponibilizar água fresca e incentivar a ingestão, e programar os trabalhos mais pesados (acima de 414 W) preferencialmente para os períodos de condição térmica mais amena. Isso vale antes de a exposição virar insalubridade. Quem só olha a NR-15 está olhando tarde.
O Anexo 3 da NR-15 não se aplica a céu aberto sem fonte artificial de calor. A própria norma diz isso no item 1.1.1. O escopo é ambiente fechado ou ambiente com fonte artificial de calor. Pátio e doca descoberta, sem forno ou equipamento gerando calor por perto, não entram por este anexo — o que muda a conversa para áreas externas da planta.
(Sobre a base de cálculo do adicional de grau médio existe discussão jurídica consolidada — Súmula Vinculante nº 4 do STF e Súmula 228 do TST. Essa é uma questão para o jurídico da empresa, não para o engenheiro.)
A ordem que funciona
Medir, calcular, e só então especificar. Nessa ordem.
- Medir o IBUTG por NHO 06, nos 60 minutos críticos, com aparelho calibrado.
- Levantar a taxa metabólica real das atividades pelo Quadro 2 — é isso que define o limite aplicável, e é o passo que quase ninguém faz direito.
- Comparar com o Quadro 1 e saber de quanto é a distância a fechar.
- Verificar o piso do bulbo úmido local: a evaporativa consegue chegar lá?
- Especificar — o equipamento como consequência do cálculo.
- Medir de novo depois de instalado, porque é a medição posterior, em novo laudo, que demonstra o efeito das medidas de controle.
Note que a compra do equipamento é o quinto passo, não o primeiro. Quando ela vem primeiro, os quatro anteriores viram justificativa retroativa — e é aí que nascem os sistemas instalados que não mudaram o laudo.
Perguntas frequentes
Climatização evaporativa resolve NR-15?
Às vezes, e nunca por catálogo. A NR-15 avalia calor pelo IBUTG, que em ambiente fechado é 0,7 × bulbo úmido natural + 0,3 × globo — a temperatura do ar não entra na fórmula. A evaporativa reduz o índice, mas nunca abaixo do bulbo úmido do ar externo. Só medição por NHO 06 caracteriza ou descaracteriza insalubridade.
O que é IBUTG e como se calcula?
IBUTG é o Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo, usado pela NR-15 para avaliar exposição ao calor. Em ambiente fechado ou sem carga solar: IBUTG = 0,7 tbn + 0,3 tg. Com carga solar direta: 0,7 tbn + 0,2 tg + 0,1 tbs. Mede-se com bulbo úmido natural, termômetro de globo e bulbo seco, segundo a NHO 06 da Fundacentro.
Quantos graus de IBUTG um climatizador evaporativo reduz?
Menos do que reduz de temperatura do ar, e com um piso. O resfriamento evaporativo é adiabático: mantém o bulbo úmido do ar praticamente constante. Por isso o IBUTG não desce abaixo do bulbo úmido externo — cerca de 19 °C nas tardes secas de agosto no interior de São Paulo, e cerca de 26 °C nas tardes úmidas de fevereiro.
Qual o limite de temperatura para trabalhar num galpão pela NR-15?
Não existe um número único: o limite depende do esforço da atividade. Pelo Quadro 1 do Anexo 3, o IBUTG máximo vai de 33,7 °C para trabalho sentado em repouso (100 W) até 24,7 °C para atividade de 606 W. Trabalho moderado em pé com as mãos, 180 W, tem limite de 30,7 °C de IBUTG.
Insalubridade por calor é de que grau?
Grau médio. O item 2.6 do Anexo 3 da NR-15 classifica em grau médio todas as situações de exposição ocupacional ao calor caracterizadas como insalubres — não há graduação por intensidade do calor dentro do anexo. A caracterização depende de o IBUTG medido ultrapassar o limite do Quadro 1 para a taxa metabólica da atividade.
Preciso de laudo técnico para caracterizar insalubridade por calor?
Sim, e sem ele não há caracterização válida. O Anexo 3 da NR-15 exige laudo com conteúdo mínimo definido: objetivos, avaliação de riscos, metodologia com locais, datas e horários das medições, identificação dos aparelhos e certificados de calibração, avaliação dos resultados, descrição das medidas de controle já adotadas e conclusão sobre caracterização ou não de insalubridade.
Como saber, antes de comprar, se climatização resolve meu problema de NR-15?
Compare dois números. O limite de IBUTG da atividade, pelo Quadro 1 do Anexo 3, e o bulbo úmido do ar externo da sua região no horário crítico. Se o bulbo úmido já supera o limite, climatização evaporativa não enquadra aquela atividade — decidido sem medir nada. Se fica abaixo, é candidata, e a medição decide.
O número que você pode levantar hoje
O piso do bulbo úmido da sua região, no horário do seu turno, é um dado público. O limite de IBUTG das suas atividades sai do Quadro 1 do Anexo 3 e de uma descrição honesta do que o operador faz. Com esses dois números você já sabe se vale seguir — antes de receber a primeira proposta.
Se o seu galpão tem problema de calor no interior de São Paulo e a pergunta é o que a climatização de fato resolve da NR-15 — inclusive quando a resposta é que ela não resolve — fale com a engenharia.